QUARTA-FEIRA, 27 de AGOSTO de 2014

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Antonio Fagundes emociona intepretando Mark Rothko em ‘Vermelho’

Bairro carlos prates bhAntonio Fagundes em ‘Vermelho’/ Foto: Divulgação

Denis Victorazo, especial para o iG Cultura.

Bruno Fagundes, 22, é um menino de sorte. Noespetáculo “Vermelho”, de John Logan, sobre a vida do pintor Mark Rothko, em cartaz em São Paulo, ele contracena com um grande ator e o colega mais generoso que poderia encontrar.

Esse grande ator é seu pai, Antonio Fagundes. “Vermelho” se passa no estúdio do pintor, entre os anos 1958 e 1959, quando ele tem a tarefa de pintar sob encomenda suas telas para o restaurante Four Seasons, que seria inaugurado em Nova York, e ganha uma fortuna para a época.

Um jovem assistente é contratado para ajudar o artista nas coisas simples, como misturar as tintas, e é logo avisado para deixar de lado qualquer ideia absurda de achar que vai ter alguma participação na “obra” do pintor.

Rotkho era intransigente, difícil, ególatra e completamente focado em seu trabalho. Sem nenhum interesse pela vida ou pelas opiniões de seu jovem assistente. Só resta ao garoto gravitar em torno dele. Quando o clima pesa, o garoto sai para comprar café.

Colega generoso e estimulante
Tive o prazer de trabalhar com Fagundes por mais de dois anos no espetáculo “Sete Minutos” de sua autoria com direção de Bibi Ferreira. Foi há dez anos. Na época, Bruno, assim como os outros três filhos de Fagundes, viviam pelo teatro, no camarim ou na plateia. Fico imaginando quantas vezes Bruno já viu o pai em cena.

Fagundes foi um colega generoso, intelectualmente estimulante (era difícil indicar um livro que ele não conhecesse), mas também rigoroso, rígido até. Era um prazer chegar cedo ao teatro para conversar com ele. O elenco todo se reunia informalmente em seu camarim, sempre aberto. Acertos de cena, ajustes técnicos, comentários sobre coisas novas que iam alterando a maneira de entender o espetáculo, tudo era feito com a mesma paixão, entre brincadeiras, cafés, histórias deliciosas e o carinho dele por todos nós.

Ele nunca se comportou como uma prima-dona, nunca foi o estereótipo do artista egocentrado, obcecado apenas pelo seu próprio trabalho e incapaz de ver o mundo mudar à sua volta.

Já ouvi diversas histórias de atores tentando “roubar a cena” do colega, às vezes boicotando o resultado geral de uma apresentação, mas Fagundes, com sua inteligência e leveza, exigia que em cena o foco fosse sempre de quem estivesse com a palavra. “Quem está falando está com a bola”, dizia.

Por mais de dois anos, durante toda a temporada, nunca tivemos nenhum problema. Só prazer e aprendizado. E como nos divertimos! Nós éramos felizes e sabíamos.

Atuação em estádio
De vez em quando levávamos uma bronca, uma chamada por conta de alguma coisa que poderia ter sido melhor. Como quando estreamos na cidade do Porto, em Portugal. Era a primeira vez que atuávamos com microfone, já que o tamanho do teatro, quase um estádio, impossibilitava que fosse de outra maneira.

Mesmo sendo tão famoso em Portugal quanto no Brasil, era a primeira vez que ele se apresentava lá e isso era mais um motivo de tensão.

Pelo tamanho do palco e por alguns problemas técnicos, o ritmo do espetáculo não foi como ele esperava. O esparadrapo que grudava o microfone no meu rosto insistia em se soltar por causa do calor e do suor. Naquela noite ele ficou bravo comigo e com nossa colega Suzy Rêgo por causa do andamento da sessão.

Quando tentei explicar que tive problemas e achei que o microfone fosse cair, ele ficou mais bravo ainda: “Perca o microfone mas não perca o ritmo!”. Meia hora depois, jantávamos juntos sem nenhum ressentimento. O bom do teatro é isso, tem sempre o dia seguinte para a gente acertar.

Perfeito para o papel
Por isso tudo, foi muito emocionante ver a grande interpretação de Fagundes e Bruno, ontem, nesse texto que discute a importância da arte, a arte como consumo, o mercado por trás do trabalho do artista e tantas questões sensíveis que o autor levanta – e a direção precisa e elegante de Jorge Takla valoriza.

Nem vou falar da minha vontade de chorar na cena em que o jovem ajudante não consegue mostrar uma tela sua para o mestre Rothko, e sai com o quadro embrulhado embaixo do braço. Por que será que foi nessa cena que eu me lembrei do esparadrapo português?

Não há ninguém melhor do que o grande Antonio Fagundes para o papel de Rothko, e nem consigo imaginar o assistente feito por outra pessoa. Bruno é uma ator sensível e cativante, e duvido que no West End londrino ou na Broadway, onde o texto foi montado com sucesso de público e crítica, tenha sido tão emocionante.

“Vermelho” tem produção impecável. E pode ser visto como uma tela de Rothko, em vários níveis, pois tem muitas camadas de cor, umas sobre as outras, e se observarmos sob a luz certa, ele vibra.

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